A História da Música Romaria de Renato Teixeira

Vamos conhecer neste artigo a história da música Romaria de Renato Teixeira. Um grande clássico da cultura brasileira.

Romaria é muito mais que uma música. É um símbolo da devoção à Nossa Senhora Aparecida, nossa Mãe e Padroeira do nosso País. É uma oração em forma de canção. É o tipo de música que é eterna… 100 anos se passarão, e as pessoas continuarão ouvindo e cantando.

Mas antes de entendermos a história da música, vamos conhecer um pouco sobre o autor da obra.

Um Pouco da História de Renato Teixeira

Seu nome completo é Renato Teixeira de Oliveira. Nome artístico: Renato Teixeira. Ele nasceu em Santos, no dia 20 de maio de 1945, e depois foi para Ubatuba, litoral norte de São Paulo.

Não podemos dizer que é um caipira de nascença, mas aos 14 anos a família se muda para Taubaté, cidade próxima de Aparecida. Então, Renato começa a aprofundar-se na música caipira.

O interesse pela música aconteceu de forma natural, pois sua família era de músicos. Seus tios eram músicos de banda, sua mãe era pianista. Logo Renato começar a fazer parte de um conjunto para tocar em festas, shows e bares.

A História da Música Romaria de Renato Teixeira
A História da Música Romaria de Renato Teixeira

 

Após cumprir o serviço militar no exército, ele revolve ir para São Paulo para tentar viver como artista. A primeira participação de Renato Teixeira em um disco, foi apenas como cantor, na clássica coleção de “Marcus Pereira”.

Mas ainda não é possível viver com suas próprias músicas e então resolve trabalhar em uma agência para criar músicas de anúncios, os chamados jingles.

A História da Música Romaria de Renato Teixeira

Com toda a experiência adquirida vivendo no interior de São Paulo, Renato Teixeira começa a trabalhar a emoção que sentira vendo os romeiros em Aparecida, com seu olhar, sua fé e gratidão.

Perguntado se tinha ideia, quando criou Romaria, que ela seria tudo isso que representa hoje, Renato Teixeira responde humildemente que isso nunca passou por sua cabeça.

Ele não imaginava de forma alguma que sua música se tornaria tão popular. Na verdade seu objetivo era criar uma canção sofisticada.

Segundo ele, a força da música está justamente em falar de um símbolo brasileiro muito forte, que é Nossa Senhora: “Aí você começa a ver como ela penetra no inconsciente coletivo do povo brasileiro.”

E afirma também: “essa música (Romaria) traz com ela… todo o significado que teve de ser a música que fez com que as pessoas voltassem a olhar para a música caipira de uma forma generosa.”

O Primeiro a Ouvir “Romaria”, Chorou

O produtor musical Marcus Pereira, um especialista em descobrir joias raras, foi a primeira pessoa a ouvir “Romaria”. Ele ficou de costas, com a mão no rosto, escutando Renato Teixeira tocar e cantar.

Ao terminar a música, Renato esperava o comentário de Marcus Pereira, que estava chorando, e disse o seguinte: “Você, Renato, fez uma coisa forte. Cuide bem dela.”

Quando a Música Romaria Explode e Vira Sucesso Nacional na voz de Elis Regina

Após ter feito a música, Renato Teixeira andou com “Romaria” embaixo do braço por três anos, atrás de quem a gravasse.
Renato Teixeira disse: “Algumas pessoas ouviram mas não se interessaram muito não. Tinha gente que achava ser caipira, feio. Isso tinha um preconceito forte contra isso, tinha mesmo, entendeu?”

Renato Teixeira já havia enviado algumas canções para Elis Regina, mas não tinha recebido nenhuma resposta. Resolveu levar outras canções para ela, pessoalmente. Entre as músicas estava “Romaria”. Elis Regina adorou e quis gravar o quanto antes. O ano era 1977.

Renato Teixeira conta como seu deu conta de que a música tinha virado um sucesso:

“Saí do estúdio, desci e fui tomar um café no bar, e aí passou um cara assobiando a música. A primeira reação, eu fiquei: ‘Pô, o que esse cara tá assobiando minha música?’ Dei uma invocada (risos), mas logo em seguida eu falei ‘sucesso, já estão assobiando na rua.’

Romaria – Uma das Músicas mais Regravadas na História da Música Brasileira

“Romaria” é uma das peças com mais regravações em toda a história da música brasileira. Fica em 23º lugar da lista. A frente dela, apenas compositores do porte de Pixinguinha, Tom Jobim, Ary Barroso, Luiz Gonzaga.

Certa vez, participando de um show de Luiz Gonzaga, Renato Teixeira encerrou sua parte com “Romaria”. Ouviu o seguinte de Gonzagão:

“Cantou sua ‘Asa Branca’, hein sr Teixeira. Você vai ver daqui a 30 anos, você vai entender o que estou dizendo. E trate de toda vez que for cantar sua música, cantar como se fosse a primeira vez.”

‘Romaria’ tem atualmente mais de 100 regravações, com nomes importantes da nossa música, como Chitãozinho e Xororó e Ivete Sangalo. Até mesmo Leon Gieco, um cantor e compositor argentino e a banda de rock Doctor Rock, a regravaram.

Uma das regravações mais importantes para Renato Teixeira, é a da filha de Elis Regina, Maria Rita, que cantou a música em um show em homenagem à sua mãe.

Renato Teixeira falou o seguinte para Maria Rita sobre essa apresentação:

“Quando te vi cantando, foi uma coisa muito emocionante, são duas cantoras diferentes mas que tem tudo a ver uma com a outra. Foi uma coisa linda, uma emoção fantástica, é uma coisa mágica.”

Maria Rita Fala Sobre a Música Romaria

Repórter:
Você se lembra quando teve conhecimento de “Romaria”?

Maria Rita:
“Não, a sensação que eu tenho é que ela já está em mim desde sempre. Quase como um inconsciente coletivo. E quando eu cantei essa música no show que eu fiz em homenagem à minha mãe, a platéia de 60 mil pessoas cantou junto, parecia uma oração.

É uma música que mexe muito comigo, com a minha questão da fé. Eu sempre tive uma relação muito difícil com Deus. Não conseguia entender um Deus que tira a mãe de uma criança. Eu sempre tive uma relação muito dura de questionamentos. Ela (a música) me aproxima da minha relação com a fé, da minha relação com a minha mãe. Essa música é muito profunda, de verdade, para mim.”

Renato Teixeira realiza uma média de 100 shows por ano, as vezes acompanhado de seu filho Chico Teixeira, e dos amigos Sérgio Reis e Almir Sater.

A abertura dos shows é sempre com “Romaria”, e o encerramento também. E o povo canta junto.

Sérgio Reis sobre Romaria / Renato Teixeira

“Quando ouvimos falar ‘Romaria’, já sabemos que é Renato Teixeira. Por isso que é Romaria, que o romeiro chega lá, e eu não sei nem rezar mas estou aqui, mostrar meu olhar.

Almir Sater sobre Renato Teixeira

“Renato Teixeira é uma pessoa diferente das outras, tem seu próprio jeito de compor, diferente. Eu não sei de onde ele tira essas histórias, o que quer dizer ‘caipira pirapora’? Nós (risos). Então ele traz umas coisas assim que vêm de muito longe, acho que é a luz dele mesmo, a força dele.”

A Importância da Cidade Pirapora para a Música Romaria

Pirapora do Bom Jesus, conhecida como a “Capital dos Romeiros”, cidade de 17 mil habitantes, a cerca de 60 km de São Paulo, região metropolitana, entrou na música “Romaria” muito pela sua significação religiosa, mas também pela sonoridade da palavra “Pirapora”.

A cidade recebe romeiros o ano todo, principalmente no dia da festa de Bom Jesus, em 16 de setembro. No dia da festa tem missa campal em frente à matriz. Na hora de “Romaria” o povo canta junto.

Às margens do Rio Tietê, foi construído o Portal do Romeiros, em homenagem aos devotos. Uma sequência de esculturas de bronze ficam apoiadas no muro de pedras, com as cenas de “Romaria”. As obras são do escultor Murilo de Sá Toledo.

Portal dos romeiros em Pirapora
Portal dos romeiros em Pirapora

 

Uma das obras retrata a parte da letra: “Como eu não sei rezar, só queria mostrar, meu olhar, meu olhar, meu olhar…”

É uma escultura representando um romeiro, ajoelhado, com a mão esquerda para trás, segurando o chapéu em sinal de respeito, a mão direita no coração, e o olhar suplicante dirigido à figura do Bom Jesus, representado em uma estátua de 3,5 metros de altura.

Como eu não sei rezar, só queria mostrar, meu olhar, meu olhar, meu olhar...
Como eu não sei rezar, só queria mostrar, meu olhar, meu olhar, meu olhar…

A Composição e Explicações da Letra de Romaria

Renato Teixeira escreveu a mão a letra da música Romaria em uma mesinha baixa, sentado no chão. Como ele não tinha um gravador nessa época para registrar a música, ele guardou na cabeça.

Ele utilizou recursos poéticos na letra e até uma palavra que não existe no dicionário.

Renato Teixeira Explica Alguns Trechos de Romaria

“É de laço e de nó
De gibeira o jiló”

Renato Teixeira:
“Nó de gibeira, algibeira, o caipira chama de ‘gibeira”. Aquilo é bem costurado, ela tem que ter uma costura forte, é o nó de gibeira, o jiló dessa vida, o amargo dessa vida, amarrado, uma coisa forte, uma coisa que a gente tem que carregar com força.”

“Dessa vida cumprida a sol”

Renato Teixeira:
“O bom verso pra mim é aquele que quem ouve é que define, ‘Dessa vida cumprida a sol” na minha cabeça é o cumprimento da vida, o compromisso sob o sol, que é um pouco da saga do caboclo, do caipira, que vive na roça, que tem que trabalhar embaixo do sol, essa saga, sabe?

Mas também pode ser uma vida comprida a sol, uma vida comprida, através dos desígnios do sol.”

Repórter:
De onde é que vem a idéia de unir caipira com pirapora?

Renato Teixeira:
“Olha, vou te falar uma coisa, foi uma “pira pora pira”… acho que é um jogo de palavras mesmo. Era Romaria, era promessa, festa, essas coisas todas, dentro desse conceito. E tem tudo a ver o caipirismo com Pirapora. Pirapora é uma cidade forte dentro da cultura caipira, então tudo combina, tudo se encaixa.

“Ilumina a mina escura
E funda o trem da minha vida”

Renato Teixeira:
“Não se pode pensar muito para fazer um negócio desses, não pode pensar muito, você tem que deixar a coisa…
‘Ilumina a mina’, eu gostava dessas coisas naquela época, teve um momento ali na MPB que se brincava muito com essas coisas, né?”

Perguntado se o “trem” na letra se referia ao trem ferroviário ou ao “trem” da conversa do mineiro:

Renato Teixeira:
“Aí é que é legal, pode ser os dois, né? ‘Fundir o trem’, tem uma coisa também muito mineiro, né?”

O repórter pergunta: “A letra de ‘Romaria’ tem alguma coisa a ver com os fatos da sua vida?”

Renato Teixeira:
“Bom, tem e não tem, né? Eu acho que ‘O meu pai foi peão, minha mãe, solidão’… eu gosto muito disso porque são duas frases pequenininhas, mas dizem muito, né? Porque você imaginar o cara acordar às 5 horas da manhã e ir pra roça, trabalhar, e a mulher ficar em casa, nos afazeres da casinha de pau a pique… é uma solidão total, né?”

“Se há sorte, eu não sei, nunca vi.”

Renato Teixeira:
“Eu acho que ‘Romaria’ não é uma coisa de hoje, é uma coisa da história rural brasileira. O que toca esse povo é a fé, não é a sorte. Eu acho que fé é mais que sorte.”

Sentado, em um dos degraus das escadas do Santuário de Aparecida, Renato Teixeira explica a estrofe final da letra:

“Me disseram, porém, que eu viesse aqui
Pra pedir em romaria e prece
Paz nos desaventos
Como eu não sei rezar, só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar”

Repórter:
Na letra de “Romaria”, o romeiro sai de sua casa, esteja ela onde estiver, e chega a Aparecida, não carregando às vezes nada mais do que seu encantamento.

Ele não traz nada pra Nossa Senhora?

Renato Teixeira:
“Traz, traz a fé que é o principal, é a grande motivação. Essas coisas só existem por causa da fé do ser humano.”

Repórter:
O que quer dizer “desaventos”?

Renato Teixeira:
“Não sei (risos). Eu achei que essa palavra existia, entendeu? Ela é tão óbvia, né? ‘Desaventos’ né? São coisas que o vento destrói, sabe? As forças da natureza, né? Eu achei que já existia, mas depois que eu fiquei sabendo que não existe, só existe em dicionários informais.

Repórter:
Qual é a história desse verso final:
“Como eu não sei rezar, só queria mostrar, meu olhar, meu olhar, meu olhar…”?

Renato Teixeira:
“Aí tem uma coisa da mágica da música. A música tem seus mistérios, ela tem seus caprichos. Eu cheguei no final da música que é ‘como eu não sei rezar, só queria mostrar meu olhar…’ e aí o que mais?

E as palavras não estavam vindo e eu comecei a repetir: ‘meu olhar, meu olhar, meu olhar…’ eu acho que acabou a música se compondo.

E depois eu penso assim, acho que não tem nada mais emblemático, mais significativo que o olhar. Nada como você oferecer o seu olhar para uma pessoa, para o seu Santo.”

Renato tem razão, Nossa Senhora não precisa de mais nada além do nosso olhar de gratidão, arrependimento, súplica e amor. Essa frase final é a mais emocionante, forte e bela da música. É o tipo de coisa que só um artista com a alma de um Renato Teixeira conseguiria criar. É simples e profundo.

Renato Teixeira atualmente vive em sua casa na Serra da Cantareira, em São Paulo, e continua criando suas belas canções.
Nossa Senhora Aparecida o abençoe.

 

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